Galápagos

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26 de abril de 2011

África do Sul 1 – Cape Town e Mandela – o líder da nação sul-africana

                   Escolhi a África do Sul como primeiro país da minha volta ao mundo em razão de estar quase na mesma latitude do Rio, o que evita “ups and downs”, que oneram o ticket RTW. Não quis parar em Johannesburg, porque não tem muitas atrações lá, além de ser conhecido como um local perigoso. Apesar disto, não há vôos diretos entre o Rio e Cape Town. É preciso voar para São Paulo com a TAM e lá embarcar com a South African Airways até Johannesburg, aonde se faz a conexão para Cape Town.

Para viajar para cá a passeio, nem brasileiros, nem portugueses precisam de visto, apenas os brasileiros devem ser vacinados contra a febre amarela e exibir um certificado internacional válido (eu sou vacinada desde 2004 e a vacina vale por 10 anos).
A moeda oficial é o Rand, sendo que 1 USD equivale a cerca de 6,6 Rands.
Quanto à língua oficial, o país possui várias, pois as línguas tribais não só foram reconhecidas, como agora o aluno deve aprender pelo menos uma na escola. Então, todos aprendem africaans (língua parecida com o dutch falado pelos holandeses), inglês e uma língua tribal, que pode ser xhosa, zulu, etc. 
(Vista aérea de Cape Town – no detalhe o Green Point, estádio construído para a Copa de 2010)
                   Optei por um hotel em City Bowl, por ser mais central, embora muitas pessoas prefiram ficar no Waterfront. Não me arrependi, pois o hotel escolhido, o Holiday Inn Express é muito bem localizado e novo, foi um dos hotéis construídos para a Copa do Mundo de 2010. Acho isso muito importante, porque são horríveis aqueles quartos de hotel mais velho, normalmente com cheiro de mofo. Hoje em dia, procuro sempre por hotéis boutique ou design, são duas categorias que você pode marcar quando fizer o “search” no booking.com. Adorei o hotel, que fornece serviço de transfer para o aeroporto e tem internet wi-fi, além do staff ser muito atencioso. Também tem um bom preço, considerando a sua localização. 
(Uma fotinho do quarto do hotel Holiday Inn Express)
                   Aliás, falando em Copa do Mundo, dá para ver como a África do Sul se preparou bem para o evento. Os aeroportos são novos e modernos e a fila da imigração é muito rápida, não dá nem para comparar com o Galeão e Guarulhos, esse último então não vou nem comentar.  
                   A África do Sul sempre esteve nos meus planos de viagem por dois motivos: a natureza exuberante e a história do país, sobre a qual sempre li nos livros da escola e também vi em filmes.
                   A capital executiva da África do Sul é Pretória, a judiciária Bloemflontein e a legislativa Cape Town. Como todos sabem, o país foi ocupado pelos holandeses no século XVII, posteriormente expulsos pelos ingleses (inclusive a mão de direção aqui é a inglesa). Então, muitas das pessoas que se vêem por aqui têm nitidamente traços desses dois países europeus. Após anos de exploração européia, o país mergulhou no regime do APARTHEID na década de 60, quando grande parte do mundo também experimentou anos de repressão e ditadura.
                   O apartheid era baseado numa premissa, a de que brancos e negros eram tão diferentes que não podiam viver juntos. Apesar de somente a minoria ser branca, foi esta minoria quem dominou os negros e os denominados “coloureds”, definidos como fruto de quaisquer mistura de raças. Em todas as cidades, remoções forçadas foram feitas, de modo que os negros e “coloureds” passaram a viver em favelas conhecidas como “townships”, nas periferias das cidades. Não podiam freqüentar os mesmos lugares que os brancos e necessitavam de um passe para se locomover, passe este que poderia ser solicitado a qualquer hora e sem o qual a pessoa seria presa e processada, sem quaisquer direitos civis.
                   Foi então que surgiu MANDELA.
                   Nascido na tribo/clã Xhosa, recebeu dois nomes: seu nome Xhosa e Nelson (nome cristão). Criado numa família humilde, estudou e formou-se em Direito na única universidade do país que, na época, admitia alunos negros. Ingressou na luta contra o APARTHEID e, por este motivo, foi preso. Não cometeu nenhum ato de violência, era somente preso político. Passou 27 anos na prisão, 18 dos quais em Robben Island, ilha que se avista a partir do Waterfront de Cape Town. 
                   A visita a Robben Island é conduzida por um antigo preso político, que explica como era o dia-a-dia da prisão e fala muito sobre Mandela. Quando se vê o tamanho minúsculo da cela em que ele ficou preso por 18 anos, não há como não ficar impressionada com a grandeza desse homem único, que nunca deixou de ser livre, embora estivesse fisicamente preso.

                   O guia nos conta que um dos filhos de Mandela morreu num acidente de carro e que ele recebeu a notícia na cadeia e sequer pôde ir ao enterro. Apesar de tudo, ele não alimentou amargura e toda sorte de outros sentimentos negativos. Ao invés disto, alimentou esperança e sonhos de uma África do Sul democrática e unida, enquanto avistava a Table Mountain (símbolo maior de Cape Town) da sua pequena janela gradeada

                     Todos os presos políticos eram separados dos presos comuns e submetidos a trabalhos forçados numa pedreira no pátio da prisão. Tinha um preso que era considerado ainda mais perigoso que Mandela e ficou totalmente segregado por quase 30 anos. Quando foi libertado, não podia mais falar, porque suas cordas vocais atrofiaram.
                    Após os anos em Robben Island, Mandela foi transferido para a prisão de Victor Vester, mais no interior e longe da imprensa. Repudiado internacionalmente, o apartheid mergulhou a África do Sul num bloqueio econômico só comparável ao experimentado por Cuba e, obviamente, fez a economia do país sofrer. Após anos de pressão internacional e interna, iniciaram-se negociações pacíficas com o então presidente Frederick de Klerk para a libertação de Mandela e a transição democrática.
 
                   Libertado e eleito presidente em 1994, Mandela não buscou vingança contra os brancos, buscou a reconciliação e a união de todos os sul-africanos, pondo fim a um círculo vicioso de ódio e violência. Ele enxergou que não podia lutar contra aqueles que detiam a maior parte da riqueza, pois isso não seria bom para o país. Priorizou a educação e atraiu investimentos, fazendo com que empresas estrangeiras finalmente pagassem impostos e taxas adequados pela exploração de ouro, diamante e outras das tantas riquezas. E usou o dinheiro em benefício do povo, não em proveito próprio, como fazem a maioria dos políticos.
                   Eu vi muitos filmes sobre ele, inclusive um documentário homônimo “Mandela” e um outro que trata da sua relação com o guarda com quem mais tinha contato em Robben Island (este esqueci o nome), ambos muitos bons. Recentemente, concorreu ao Oscar o filme Invictus, que trata da idéia genial de unir o país através do esporte, no caso o rúgbi (uma espécie de futebol americano, só que herdado dos ingleses). Esse filme é incrível e mostra como Mandela era realmente um visionário. Conversei com muitas pessoas daqui (brancos, “coloureds” e negros) e todo mundo fala que o filme retrata exatamente o espírito de união que tomou conta do país por conta da Copa do Mundo de Rúgbi.
                   Quando eleito, Mandela foi olhado com muita desconfiança pelos brancos, mas hoje é amado por todos. Nunca se utilizou da idéia de Maquiavel, retratada na obra “O Príncipe”, segundo a qual um governante se tiver que escolher entre ser temido ou amado, deve escolher ser temido. Mandela é um herói, um ícone idolatrado pelos negros como um verdadeiro Deus, mas também é amado pelos brancos.
                   Carinhosamente chamado de Madiba (pai), ainda é o líder da nação sul-africana, não importa quem seja o presidente. Já tem mais de 90 anos e muitos temem o que possa acontecer com o país quando ele morrer. Há boatos de que algumas pessoas estão comprando fazendas, aonde possam se refugiar caso o país entre em guerra. Mas, outros pensam que é alarmismo desnecessário. Seria uma pena ver o país em guerra em razão da morte de alguém que sacrificou sua vida em nome da paz, tendo ganho inclusive o prêmio Nobel da paz.
Todos dizem que nenhum outro presidente depois dele foi tão bom quanto, inclusive o atual Jacob Zuma, mal visto por ter várias mulheres (embora seu clã zulu, o maior do país, permita a poligamia).
                   Concluindo, fiquei realmente muito impressionada em ver de perto a história da África do Sul, tão ligada à estória de vida de Mandela e poder ouvir das pessoas daqui o que realmente aconteceu.


     

2 comentários:

  1. Obrigada pela aula de história professora Vivi! Me lembrei de vc me ensinando História naquele quartinho do Botanico com vista pra Lagoa.
    Beijo,
    Lulu

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  2. Lulu,
    Pois é, lembra da nossa infância? Valeu à pena estudar, né? bjs da sua irmã

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