Galápagos

Galápagos

27 de abril de 2011

África do Sul 4 – Cape Town – 3º dia inteiro

                        No meu 3º dia inteiro em Cape Town, continuei o tour no ônibus “hop on – hop off”.

                   Primeiro, desci em Bo Kaap, que significa “acima do Cabo”, pois é um bairro em aclive. Esse bairro, que é lindo, todo colorido, até hoje abriga descendentes de indianos, malaios e habitantes provenientes da Indonésia. O motorista do hotel que fez os meus transfers é um descendente de indianos que vive aqui. Chamei ele de Tariq o tempo todo e só no último dia descobri que o nome dele é Sherif. Mas, acho que ele entendeu, rs.



                   Todo mundo pensa que aqui se utilizaram escravos africanos, mas, na verdade, são as três nacionalidades mencionadas acima as que foram escravizadas pelos colonizadores europeus. E, durante o apartheid, eles também foram segregados por serem considerados “coloureds”.

                   Ao visitar o Museu de Bo Kaap, aprendi sobre o carnaval daqui, é impressionante a similaridade com o nosso carnaval de rua. As pessoas começaram a brincar o carnaval justamente para esquecer das suas tristezas, assim como ocorreu no Brasil com os afro-descendentes.

                   Em seguida, fiz mais um passeio pelo litoral, que é muito limpo e bonito, com várias áreas de lazer para as pessoas praticarem esportes, brincarem com os cachorros, etc. Tem umas piscinas públicas a beira mar incríveis, assim como há em Sydnei, na Austrália.



                   Finalmente, cheguei ao Victoria & Alfred Waterfront para pegar o barco para Robben Island (vide o 1º post sobre a ilha). É necessário reservar com antecedência pela internet ou ir lá antes comprar, porque normalmente os ingressos se esgotam, ainda mais em feriados. Também tem um mini museu sobre a ilha no Jetty 1 do Waterfront, aonde se pode visualizar as cartas que os parentes dos presos enviavam solicitando visitas. Eles usam muito a expressão “I beg”, que significa “eu imploro”. O governo é quem decidia se iria permitir ou não e todo o processo poderia levar meses.

(vejam uma das cartas)

                   Também fiz um passeio onde se podem ver as “Cape fur seals”, as focas daqui. Tem uma ilha só delas perto de Hout Bay.

(elas ficam deitadas nesse grandes pneus, que servem de defensas no cais do Waterfront)

                   Aí então, passeando pelo Waterfront, descobri um passeio de helicóptero e resolvi fazer. Junto comigo, foi uma família de muçulmanos de Johannesburg. Quando o homem soube que eu estava sozinha, quase teve um troço! Mas, depois eles foram bem simpáticos e me contaram que viviam em Johannesburg na época do apartheid. Não podiam ir a nenhum lugar designado somente para os brancos. Então, passaram quase toda a vida vivendo num gueto e somente agora estão podendo viajar e conhecer o país. A filha deles, que deve ter uns 15 anos, já nasceu na nova era, a da “rainbow nation”.



                   Do helicópetero, o visual das montanhas junto ao mar é maravilhoso, mas o mais emocionante foi ver as baleias jubarte do alto! Normalmente, as baleias migram para Hermanus, na Garden Route entre junho e novembro para acasalar. Mas, como o clima do planeta está louco, este ano elas chegaram mais cedo e eu pude vê-las. Observar um animal dessa magnitude e força traz a certeza de como a natureza é infinitamente superior ao homem, definitivamente o maior predador de todos (isto vem escrito em várias plaquinhas por aqui).


                   De volta ao Waterfront, é bem legal almoçar por aqui de frente para o mar e passear nas lojinhas. Também tem uma roda gigante e, como eu sou meio criança, resolvi ir. Daí que na fila tinha uma menina de Johannesburg (ou Joburg como eles falam) cujos pais não queriam ir, estavam esperando do lado de fora. Achei engraçado porque ela me perguntou se eu ia com os meus pais, fazendo menção a um casal desconhecido à minha frente, que não tinha mais de 40 anos. Eu disse que estava sozinha e ela pediu para vir na cabine junto comigo. Muito fofinha, olha a foto dela. A maior parte das sul-africanos são muito amáveis e estão sempre sorrindo, apesar de serem sofridos.





                  



                  

África do Sul 3 – Cape Town – 2º dia inteiro

                        No meu 2º dia inteiro em Cape Town, eu resolvi pegar um daqueles ônibus “hop on – hop off” muito comuns na Europa e que eu acho ótimos, porque, como o próprio nome diz, você pode descer e voltar a qualquer momento e passa nos principais pontos de interesse, além de ter uns fones para ouvir a explicação de cada lugar.

                   Aqui, tem duas linhas, a vermelha e a azul, que eles chamam de mini península, esta também dá acesso às vinícolas de Constantia. Se você comprar 1 ticket para 2 dias consecutivos, pode fazer as duas.
                   No caminho, você vê o Parlamento, a Universidade, os museus principais (District Six – museu do Apartheid, Museu do Ouro, Museu Bo Kaap), etc. O que chama a atenção é como a cidade é muito, muito limpa e bem cuidada. Dá pena lembrar do Rio de Janeiro e da falta de educação das pessoas. E não se pode nem dizer que é por causa da pobreza, porque aqui também tem pobreza. Mas, como a cidade segregou os pobres, enviando-os para a periferia, você só vê basicamente boas moradias em Cape Town.
(Universidade)

                    O District Six é um exemplo de bairro onde houve remoções forçadas. Apesar delas, ainda há algumas “townships” dentro da cidade. Mas, mesmo lá, não se vê a quantidade de lixo que vemos na rua nas cidades brasileiras. Existem tours para visitá-las, mas assim como não faria um favela tour na Rocinha, não fiz esse tour aqui, acho meio zoológico humano. E vale dizer que eu sou contra qualquer tipo de zoológico, acho que os animais têm tanto direito à liberdade como nós e foram criados para serem livres. Se ninguém fosse aos zôos e shows de animais (ainda mais terríveis), eles não existiriam. É muito importante pensar no “responsible travel”, que é viajar respeitando os lugares visitados e contribuindo somente para iniciativas eco-sustentáveis. 

                   Nesse dia, subi a Table Mountain num bondinho, que é tipo o Pão de Açúcar, mas o chão roda 360º . É importante fazer esse passeio na primeira oportunidade, pois se estiver ventando muito, o que é comum por aqui, eles cancelam. Felizmente, fui num lindo dia de sol e o visual lá de cima é incrível! Dá para ver a cidade toda e também o lado do Oceano Índico até o Cabo da Boa Esperança.


                   Tinha uma excursão escolar visitando, olha só como é lindo o uniforme das crianças, eles usam até gravata.

                   Em seguida, desci em Camps Bay, que é tipo um balneário de verão, com uma orla muito linda, cheia de barzinhos e restaurantes.


                   Dali, visitei as vinícolas de Constantia, que ficam nas montanhas. É um passeio muito bonito, porque dá para ver as áreas verdes de Cape Town, inclusive o Jardim Botânico Kirstenbosch.



                   E finalizando o dia, vi o pôr-do-sol no litoral.


África do Sul 2 – Cape Peninsula e Stellenbosch – 1º dia inteiro

                        Se alguém me perguntar quantos dias passar em Cape Town, eu diria que depende do que a pessoa quiser fazer porque há muitas atrações. Eu passei 4 dias na chegada, sendo 3 dias inteiros, fui para Port Elizabeth (vou falar depois sobre este tema) e voltei para mais 1 dia em Cape Town antes de voar para Cingapura. Acho que, se fizesse a viagem de novo, ficaria mais 1 dia inteiro em Cape Town e separaria mais uns 4 dias para a Garden Route, que é a estrada linda que liga Cape Town a Port Elizabeth. Eu fiz um pedaço dessa viagem e é lindo, lembra muito a Big Sur (Highway 1 da Califórnia), pois vai margeando o mar e tem uns penhascos incríveis.
                   Aliás, falando em comparações, a África do Sul lembra a Califórnia, o sul da Austrália e, de certa forma, o Rio. O engraçado é que a maioria das pessoas quando pensa em África, se concentra logo na trilogia nefasta da Idade Média: a fome, a peste e a guerra. Ou nas pragas do Apocalipse. Mas, a África do Sul não é nada disso, é um país lindo.
                   Assim que eu cheguei, fui trocar dinheiro e dar uma volta perto do meu hotel. As ruas mais legais para andar aqui são a minha (St George’s Mall), Long Street e a praça do Green Market, que é um mercado de rua, aonde se vende basicamente artesanato e roupas daqui. 
Para o meu primeiro dia inteiro aqui, que seria o dia seguinte à minha chegada, marquei um passeio chamado Best of Cape com a empresa African Eagle, que achei ótima. O passeio vai até o Cabo da Boa Esperança, margeando todo o litoral. Em seguida, vai para Stellenbosch, na região das vinícolas.
A primeira parada é Camps Bay, uma praia com ares californianos, ladeada pelas montanhas 12 apóstolos (no sul da Austrália, também tem uma formação rochosa homônima). Daí, segue até o Cape of Good Hope (Cabo da Boa Esperança), passando por Chapman’s Peak, que é o visual mais bonito, aonde a estrada foi literalmente escavada na rocha.
O Cabo da Boa Esperança é mundialmente conhecido por estar intimamente ligado à estória das grandes navegações. É exatamente o ponto onde há o encontro dos oceanos Atlântico e Índico. Assim, o navegador que conseguisse cruzá-lo, finalmente descobriria a rota para as na época chamadas Índias Orientais, importante ponto do comércio das especiarias.
O primeiro a tentar foi o português Bartolomeu Dias, que naufragou duas vezes aqui, tendo morrido afogado na 2ª vez. Por esse motivo, o ponto foi inicialmente denominado Cabo das Tormentas.
O primeiro a conseguir cruzar estas águas turbulentas foi o também português Vasco da Gama. Quase na mesma época o Brasil foi descoberto por acaso, pois o que se queria era chegar às “Índias”, tanto é que nosso país recebeu o título de “Índias Ocidentais”.
Um pouco mais tarde, D. João VI resolveu trocar o nome do Cabo das Tormentas, que ele acreditava atrair má sorte, para Cabo da Boa Esperança.
Os portugueses, no entanto, utilizaram a África do Sul somente como rota, tendo sido os holandeses a primeiro colonizar a região. Conforme já mencionado, ao perceber o quanto estratégica era a posição do país, os ingleses não demoraram a expulsar os holandeses daqui.

Infelizmente, no dia do passeio, o tempo não estava muito bom, mas dizem que em dias de céu claro, pode-se visualizar exatamente o ponto de encontro dos oceanos. Ventava muito e eu sou obrigada a dizer que o nome mais apropriado para o local é mesmo Cabo das Tormentas.
Toda a área do Cabo é um parque nacional protegido, como várias regiões do país, que realmente cuida da sua riqueza natural. Tem vários animais livres (free roaming) na área, inclusive eu pude ver os avestruzes.

Dá também para ver umas algas gigantes, os kelps, muito comuns na Califórnia. No filme Surf Adventures, aparecem os surfistas brincando com os kelps, é muito engraçado.

Daí se chega a Boulders Beach em Simon’s Town, habitat natural dos pingüins. Normalmente, durante o dia, eles estão no mar se alimentando e pescando para alimentar a cria nos ninhos, retornando à praia ao anoitecer. Novamente, lembrei do sul da Austrália, pois vi esse retorno dos pingüins lá, num lugar chamado Phillip Island. Felizmente, tinha alguns pingüins na praia aqui na África do Sul e pude vê-los bem. Acho que o governo deveria tomar alguma medida para manter as pessoas a uma certa distância, como é feito na Austrália, pois nem todo mundo respeita e realmente estressa o animal quem chega muito perto. Ninguém gosta que alguém entre na sua casa sem pedir licença e o animal não é diferente. As pessoas vão chegando e jogando logo o flash na cara dos bichinhos, o ser humano é muito estranho mesmo.
(Olha que lindo a mamãe pingüim protegendo o bebezinho!)
Depois dos pingüins, segui para as vinícolas de Stellenbosch, sendo que no caminho passei por várias cidadezinhas legais, a que mais gostei foi Muizenberg.
                       Já a cidade de Stellenbosch se parece muito com o interior da Europa e é conhecida pelos vinhos e por ser uma cidade universitária.  O estilo arquitetônico é o das “manor houses” holandesas. Tem uns restaurantes bem legais, inclusive o Muggs & Bean, que é bem famoso no país todo.
                                   (Manor Houses)
Os vinhos da África do Sul são internacionalmente conhecidos e não ficam nada a dever aos vinhos europeus, apenas não têm tanta tradição. Inicialmente, em razão do clima, predominavam as uvas brancas, mas em virtude do crescimento do consumo pelo mercado europeu, os sul-africanos passaram a fabricar muito vinho tinto para exportação.
Visitei a vinícola Zevendath, de propriedade da mesma família há várias gerações. Lá dá para ver todo o processo de produção e fazer uma degustação de vinhos com queijos sul-africanos.

                        O vinho que eu mais gostei foi o da uva Pinotage, que é específica da África do Sul, fruto do “cruzamento” bem sucedido entre as uvas pinot noir e cinsaut.
As outras principais regiões vinícolas aqui são Franschoek e Constantia, esta mais perto de Cape Town.
Gostei muito do passeio, apesar do mau tempo. Como eu disse no post anterior, um pouco de história e um pouco de natureza.





                              

26 de abril de 2011

África do Sul 1 – Cape Town e Mandela – o líder da nação sul-africana

                   Escolhi a África do Sul como primeiro país da minha volta ao mundo em razão de estar quase na mesma latitude do Rio, o que evita “ups and downs”, que oneram o ticket RTW. Não quis parar em Johannesburg, porque não tem muitas atrações lá, além de ser conhecido como um local perigoso. Apesar disto, não há vôos diretos entre o Rio e Cape Town. É preciso voar para São Paulo com a TAM e lá embarcar com a South African Airways até Johannesburg, aonde se faz a conexão para Cape Town.

Para viajar para cá a passeio, nem brasileiros, nem portugueses precisam de visto, apenas os brasileiros devem ser vacinados contra a febre amarela e exibir um certificado internacional válido (eu sou vacinada desde 2004 e a vacina vale por 10 anos).
A moeda oficial é o Rand, sendo que 1 USD equivale a cerca de 6,6 Rands.
Quanto à língua oficial, o país possui várias, pois as línguas tribais não só foram reconhecidas, como agora o aluno deve aprender pelo menos uma na escola. Então, todos aprendem africaans (língua parecida com o dutch falado pelos holandeses), inglês e uma língua tribal, que pode ser xhosa, zulu, etc. 
(Vista aérea de Cape Town – no detalhe o Green Point, estádio construído para a Copa de 2010)
                   Optei por um hotel em City Bowl, por ser mais central, embora muitas pessoas prefiram ficar no Waterfront. Não me arrependi, pois o hotel escolhido, o Holiday Inn Express é muito bem localizado e novo, foi um dos hotéis construídos para a Copa do Mundo de 2010. Acho isso muito importante, porque são horríveis aqueles quartos de hotel mais velho, normalmente com cheiro de mofo. Hoje em dia, procuro sempre por hotéis boutique ou design, são duas categorias que você pode marcar quando fizer o “search” no booking.com. Adorei o hotel, que fornece serviço de transfer para o aeroporto e tem internet wi-fi, além do staff ser muito atencioso. Também tem um bom preço, considerando a sua localização. 
(Uma fotinho do quarto do hotel Holiday Inn Express)
                   Aliás, falando em Copa do Mundo, dá para ver como a África do Sul se preparou bem para o evento. Os aeroportos são novos e modernos e a fila da imigração é muito rápida, não dá nem para comparar com o Galeão e Guarulhos, esse último então não vou nem comentar.  
                   A África do Sul sempre esteve nos meus planos de viagem por dois motivos: a natureza exuberante e a história do país, sobre a qual sempre li nos livros da escola e também vi em filmes.
                   A capital executiva da África do Sul é Pretória, a judiciária Bloemflontein e a legislativa Cape Town. Como todos sabem, o país foi ocupado pelos holandeses no século XVII, posteriormente expulsos pelos ingleses (inclusive a mão de direção aqui é a inglesa). Então, muitas das pessoas que se vêem por aqui têm nitidamente traços desses dois países europeus. Após anos de exploração européia, o país mergulhou no regime do APARTHEID na década de 60, quando grande parte do mundo também experimentou anos de repressão e ditadura.
                   O apartheid era baseado numa premissa, a de que brancos e negros eram tão diferentes que não podiam viver juntos. Apesar de somente a minoria ser branca, foi esta minoria quem dominou os negros e os denominados “coloureds”, definidos como fruto de quaisquer mistura de raças. Em todas as cidades, remoções forçadas foram feitas, de modo que os negros e “coloureds” passaram a viver em favelas conhecidas como “townships”, nas periferias das cidades. Não podiam freqüentar os mesmos lugares que os brancos e necessitavam de um passe para se locomover, passe este que poderia ser solicitado a qualquer hora e sem o qual a pessoa seria presa e processada, sem quaisquer direitos civis.
                   Foi então que surgiu MANDELA.
                   Nascido na tribo/clã Xhosa, recebeu dois nomes: seu nome Xhosa e Nelson (nome cristão). Criado numa família humilde, estudou e formou-se em Direito na única universidade do país que, na época, admitia alunos negros. Ingressou na luta contra o APARTHEID e, por este motivo, foi preso. Não cometeu nenhum ato de violência, era somente preso político. Passou 27 anos na prisão, 18 dos quais em Robben Island, ilha que se avista a partir do Waterfront de Cape Town. 
                   A visita a Robben Island é conduzida por um antigo preso político, que explica como era o dia-a-dia da prisão e fala muito sobre Mandela. Quando se vê o tamanho minúsculo da cela em que ele ficou preso por 18 anos, não há como não ficar impressionada com a grandeza desse homem único, que nunca deixou de ser livre, embora estivesse fisicamente preso.

                   O guia nos conta que um dos filhos de Mandela morreu num acidente de carro e que ele recebeu a notícia na cadeia e sequer pôde ir ao enterro. Apesar de tudo, ele não alimentou amargura e toda sorte de outros sentimentos negativos. Ao invés disto, alimentou esperança e sonhos de uma África do Sul democrática e unida, enquanto avistava a Table Mountain (símbolo maior de Cape Town) da sua pequena janela gradeada

                     Todos os presos políticos eram separados dos presos comuns e submetidos a trabalhos forçados numa pedreira no pátio da prisão. Tinha um preso que era considerado ainda mais perigoso que Mandela e ficou totalmente segregado por quase 30 anos. Quando foi libertado, não podia mais falar, porque suas cordas vocais atrofiaram.
                    Após os anos em Robben Island, Mandela foi transferido para a prisão de Victor Vester, mais no interior e longe da imprensa. Repudiado internacionalmente, o apartheid mergulhou a África do Sul num bloqueio econômico só comparável ao experimentado por Cuba e, obviamente, fez a economia do país sofrer. Após anos de pressão internacional e interna, iniciaram-se negociações pacíficas com o então presidente Frederick de Klerk para a libertação de Mandela e a transição democrática.
 
                   Libertado e eleito presidente em 1994, Mandela não buscou vingança contra os brancos, buscou a reconciliação e a união de todos os sul-africanos, pondo fim a um círculo vicioso de ódio e violência. Ele enxergou que não podia lutar contra aqueles que detiam a maior parte da riqueza, pois isso não seria bom para o país. Priorizou a educação e atraiu investimentos, fazendo com que empresas estrangeiras finalmente pagassem impostos e taxas adequados pela exploração de ouro, diamante e outras das tantas riquezas. E usou o dinheiro em benefício do povo, não em proveito próprio, como fazem a maioria dos políticos.
                   Eu vi muitos filmes sobre ele, inclusive um documentário homônimo “Mandela” e um outro que trata da sua relação com o guarda com quem mais tinha contato em Robben Island (este esqueci o nome), ambos muitos bons. Recentemente, concorreu ao Oscar o filme Invictus, que trata da idéia genial de unir o país através do esporte, no caso o rúgbi (uma espécie de futebol americano, só que herdado dos ingleses). Esse filme é incrível e mostra como Mandela era realmente um visionário. Conversei com muitas pessoas daqui (brancos, “coloureds” e negros) e todo mundo fala que o filme retrata exatamente o espírito de união que tomou conta do país por conta da Copa do Mundo de Rúgbi.
                   Quando eleito, Mandela foi olhado com muita desconfiança pelos brancos, mas hoje é amado por todos. Nunca se utilizou da idéia de Maquiavel, retratada na obra “O Príncipe”, segundo a qual um governante se tiver que escolher entre ser temido ou amado, deve escolher ser temido. Mandela é um herói, um ícone idolatrado pelos negros como um verdadeiro Deus, mas também é amado pelos brancos.
                   Carinhosamente chamado de Madiba (pai), ainda é o líder da nação sul-africana, não importa quem seja o presidente. Já tem mais de 90 anos e muitos temem o que possa acontecer com o país quando ele morrer. Há boatos de que algumas pessoas estão comprando fazendas, aonde possam se refugiar caso o país entre em guerra. Mas, outros pensam que é alarmismo desnecessário. Seria uma pena ver o país em guerra em razão da morte de alguém que sacrificou sua vida em nome da paz, tendo ganho inclusive o prêmio Nobel da paz.
Todos dizem que nenhum outro presidente depois dele foi tão bom quanto, inclusive o atual Jacob Zuma, mal visto por ter várias mulheres (embora seu clã zulu, o maior do país, permita a poligamia).
                   Concluindo, fiquei realmente muito impressionada em ver de perto a história da África do Sul, tão ligada à estória de vida de Mandela e poder ouvir das pessoas daqui o que realmente aconteceu.


     

21 de abril de 2011

A Volta ao Mundo em 72 dias – você tem coragem?


Comecei este blog em Novembro de 2010, mas, por falta de tempo, acabei não incluindo nenhuma outra postagem.

Até que decidi fazer uma viagem de volta ao mundo, ótima razão para continuar.

Prometo depois postar, aos poucos, as viagens pretéritas, que incluem:
1.     América do Sul: Brasil (Amazônia, Nordeste, Fernando de Noronha, Bonito, Sudeste, Foz do Iguaçu e Floripa), Argentina (Bariloche e Buenos Aires), Chile (Santiago, Valle Nevado e Deserto do Atacama), Venezuela (Caracas e minha péssima experiência), Colômbia (Bogotá) e Equador (Quito e Galápagos – o lugar mais incrível da Terra).
2.    América Central e Caribe: Curaçao (Antilhas Holandesas), Cuba (a melhor experiência cultural) e Panamá.
3.    América do Norte: México (Riviera Maya e Cozumel) e Estados Unidos (Flórida, Nova Iorque, Washington D.C., Califórnia e Havaí).
4.    Europa: Portugal (roteiro completo do Porto a Lisboa), Espanha (Madrid, Toledo, El Escorial, Barcelona e arredores), Bélgica (Bruges), França (Paris, Giverny, Vale do Loire, Rouen, Honfleur, Mont Saint-Michel, Epernay, Dijon, Annecy, Ivoire, Provence e Côte D’azur), Mônaco, Suíça (praticamente todo o país), Itália (Milão, Nápoles, Pompéia, Capri, Costa Amalfitana, Roma, Florença, Toscana, Veneza), Holanda (Amsterdam), República Tcheca (Praga), Grécia (Atenas, Mikonos, Santorini e Rhodes) e Turquia (Istambul – cidade que se localiza metade na Europa, metade na Ásia).
5.    Ásia: Turquia (Istambul e Capadócia)
6.    África: Egito (Cairo e Sharm El Sheik)
7.    Oceania: Austrália (Sydnei, Blue Mountains, Port Douglas/Cairns (Grande Barreira de Corais), Melbourne, Great Ocean Road (12 Apóstolos, Phillip Island e outros).

Tendo feito as viagens acima mencionadas, comecei a listar todos os lugares que queria conhecer e a simular diferentes roteiros no site da Star Alliance, uma das três alianças aéreas que vendem passagens de volta ao mundo (RTW – round the world tickets). As outras duas são a Sky Team (pode esquecer) e a One World (essa é razoável, mas não tem a malha aérea da Star Alliance, a melhor de todas).
Basta entrar no site www.staralliance.com, clicar em “fares” e a seguir em “round the world”. A partir daí começa a saga. A passagem é cheia de restrições, tem que ler bem as regras antes de emitir.
Em linhas gerais, há 4 faixas de preço, considerando as milhas efetivamente percorridas pelo passageiro (note que não é bilhete prêmio, é pagante, para emitir como prêmio são necessárias 350.000 milhas na econômica, se não me engano): até 26.000 (tarifa econômica especial) e mais 3 faixas que podem ser emitidas na econômica,  executiva e primeira (29.000, 34.000 e 39.000). Na minha opinião, é um bilhete que vale muito à pena emitir na executiva, pelo valor convidativo e pelo conforto para trechos tão longos.
O passageiro tem que escolher uma direção – leste ou oeste – e seguir sempre na mesma. Logo, a viagem começa e termina no mesmo país e você circunda o globo terrestre, fazendo literalmente uma volta ao mundo.
Além disto, não pode passar 2 vezes pela mesma cidade, nem mesmo em conexão ou escala. Tem direito a, no máximo, 16 trechos (escalas e conexões contam) e 15 “stopovers” (com um mínimo de 3). Assim, o ideal é escolher destinos que possuam vôos diretos entre si. A viagem deve durar um mínimo de 10 dias e no máximo 1 ano.

Após estudar todas estas regras e simular diversos roteiros, me decidi por um roteiro que seguia pelo oeste (para voar sempre “a favor” do fuso) e começava nas ilhas do Havaí (seria minha 2ª visita, a 1ª foi em 2003), de lá para Palau (Micronésia, um incrível ponto de mergulho) e daí para o Japão. Em seguida, a viagem continuava pela Ásia e África, antes de retornar ao Brasil. Prestes a emitir o bilhete fui surpreendida pelo terremoto no Japão, em 11 de Março de 2011, dia do meu aniversário, o que mudou completamente meus planos, não só pela destruição e “aftershocks”, como pelo acidente nuclear. Um hotel que eu havia contactado para informações, me enviou um email aconselhando a suspender a viagem sine die (achei incrível a honestidade e correção deles em tempos tão difíceis). Daí acabei cortando a China também e futuramente, quem sabe, visitarei estes dois países.

Refiz meus planos, buscando encaixar as paradas de acordo com o melhor clima possível e temporada, outra extensa pesquisa que tive que fazer. Além disso, encaixei os Estados Unidos no final por 2 motivos: uma “recompressão” antes da volta para casa e um ponto para compras, afinal ninguém é de ferro (e para não carregar muita bagagem, não vou poder comprar quase nada nas outras paradas).
Ao concluir a simulação do roteiro no site, preenchi todos os dados para fazer a emissão (antes de 2009, não era possível emitir “on line”, apenas simular). Ocorre que, teoricamente, agora isto é possível, mas para meu azar, o site apresentou erro, não emitiu, mas lançou a cobrança em 3 dos meus cartões de crédito (com os quais tentei emitir). A Star Alliance não disponibiliza um atendimento telefônico no Brasil e quem a representa é a Lufhtansa (em nome de quem foi feito o bloqueio indevido do meu crédito). Esta, por sua vez, não tem telefone de contato para problemas com compras “on line”, apenas um email para a loja de SP. Não preciso dizer o quanto foi difícil anular estes bloqueios incorretos, o que apenas consegui depois de 1 semana de incontáveis emails para a Lufhtansa, que admitiu o erro, e ligações e fax para os cartões e seu telemarketing insuportável.
Acho que muitas pessoas, no meu lugar, teriam desistido, mas eu persisti por ter sonhado muito tempo com essa viagem, sendo que o mais difícil, que era conseguir o tempo livre no trabalho, eu consegui.
Então, pesquisei um pouco mais e descobri que a TAM fazia essas emissões no Brasil, apesar de não haver muitos funcionários com conhecimento para isso, já que esse produto RTW, velho amigo dos europeus, praticamente não é vendido no nosso país. As agentes de turismo, normalmente já meio enroladas, nunca ouviram falar.
Para minha sorte, fui muito bem atendida por uma funcionária do “call center” da TAM, que fez a emissão para mim num Domingo, depois de ter me retornado no Sábado com todas as informações. Um atendimento realmente exemplar. Depois descobri que também há um email para este tipo de solicitação, o roundtheworld@tam.com.br.

Emissão realizada, cheguei, então, ao meu roteiro final:
1.     Cape Town (África do Sul) – sendo que comprei por fora um outro bilhete da SAA para Port Elizabeth, pois farei um safári próximo
2.    Cingapura (Cingapura)
3.    Bali (Indonésia)
4.    Bangkok (Tailândia) – emiti também por fora, com Air Asia, bilhetes para Krabi e Chiang Mai, na Tailândia e, com Bangkok Airways, para Siem Reip, no Cambodia
5.    Auckland (Nova Zelândia) – onde farei uma viagem por terra visitando a maior parte da Ilha Norte (na Ilha Sul, chove muito nessa época)
6.    Papeete (Tahiti) – o trecho Auckland-Papeete-Auckland, emiti pela Air New Zealand como prêmio de milhas Victoria TAP (faz parte da Star Alliance), porque não é permitido passar 2 vezes pela mesma cidade e para seguir para os Estados Unidos necessariamente tem que se passar por Auckland (muitos vão se perguntar porque eu não volto pelo Chile e já respondo, é porque a Lan Chile não faz parte da Star Alliance).
Obs: o Tahiti é somente a ilha principal da Polinésia Francesa, pertencente às Ilhas da Sociedade. Assim, comprei essa parte da viagem com a Tahiti Nui Travel, que marcou todos os hotéis, transfers e deslocamentos internos (ferry boat e vôos) para mim. Então, nessa parte linda do mundo, vou visitar além do Tahiti, Moorea, Bora Bora e Rangiroa.
7.    San Francisco (Estados Unidos) – cidade que visitarei pela 3ª vez
8.    Los Angeles (Estados Unidos) – cidade que visitarei pela 2ª vez
9.    Las Vegas (Estados Unidos) – ponto da onde é possível voar de helicóptero para o Grand Canyon
Obs: os Estados Unidos são o único país aonde é permitido fazer 3 “stopovers” na viagem RTW
10. De Vegas, volto para o Rio, com conexão em Houston.

Cias Aéreas com as quais vou voar:
1.     Rio – Cape Town (com conexão em São Paulo e Johannesburg) – South African Airways
2.    Cape Town – Port Elizabeth – Cape Town - South African Airways
3.    Cape Town – Cingapura – Singapore Airlines
4.    Cingapura – Bali (aeroporto de Denpasar) – Singapore Airlines
5.    Bali – Bangkok – Thai Airways
6.    Bangkok – Krabi – Bangkok - Air Asia
7.    Bangkok – Siem Reip – Bangkok – Bangkok Airways (a única que voa direto)
8.    Bangkok – Chiang Mai – Bangkok – Air Asia
9.    Bangkok – Auckland – Thai Airways
10. Auckland – Papeete – Auckland – Air New Zealand
11.  Auckland – San Francisco – Air New Zealand
12. San Francisco – Los Angeles – United Airlines
13. Los Angeles – Las Vegas – US Airways
14. Las Vegas – Rio (com conexão em Houston) – Continental Airlines

Antes de emitir o bilhete, obviamente pesquisei quanto tempo passaria em cada lugar, porque apesar da passagem suportar remarcação de data e até de cia aérea sem multa (desde que isso não implique em “re-routing”), dá muita dor de cabeça ter que alterar hospedagem e outros. Com a passagem em mãos, emiti os bilhetes extras já mencionados e marquei os hotéis, utilizando basicamente duas ferramentas, os sites www.booking.com (algumas vezes sites dos próprios hotéis) e www.tripadvisor.com, no qual você pode visualizar opinões sobre hotéis, cias aéreas e passeios. Tem também o fórum de discussão Thorn Tree do Lonely Planet, que é muito bom.

Também me programei para tomar todas as vacinas necessárias, viajar com 3 cartões de crédito e o cartão “Travel Money”, que é um cartão pré-pago do Visa. Isto quer dizer que você carrega o cartão com quantos dólares quiser e fecha o câmbio antes de viajar, o que garante a cotação.
Vistos não vou precisar, pois viajo com 2 passaportes - brasileiro e português. Portugal faz parte do “Visa Waiver Programme” americano, o que significa que cidadãos portugueses não precisam de visto, mas apenas de uma “flight authorization” para viajar para os Estados Unidos. Esta autorização pode ser obtida no site: https://esta.cbp.dhs.gov/esta/

A viagem será feita de 18 de Abril a 30 de Junho de 2011, período que compreende 72 dias, sem contar o dia da ida e o da volta. O personagem inglês de Jules Verne conseguiu em 80 dias, eu vou fazer em 72. Por causa do seu famoso livro “Le tour du monde em quatre-vingts jours”, muitos ingleses deram a volta ao mundo.

Um pouco antes da viagem ficar pronta, foi apresentado à minha turma de conversação em francês o seguinte tema: o que você faria se ficasse milionário? A grande maioria dos alunos respondeu que passaria um ano viajando, que daria a volta ao mundo.
Curioso é que quando contei que faria a volta ao mundo em 72 dias, não em um ano, e sem ter ganho na mega-sena, a maioria das pessoas (não só no francês) me perguntou:
“Você tem coragem?”
Eu tenho.
E sem pretensão nenhuma de ser algum tipo de super-heroína moderna, digo que a grande verdade é que a maioria das pessoas não tem. A maioria não faria esta viagem, nem que tivesse tempo e dinheiro para tal.
Pelos mais diversos medos e motivos.
Todo mundo diz que quer ser livre, mas será que quer mesmo?  A liberdade traz o novo e o desconhecido, que têm um quê de assustadores, enquanto viver sempre as mesmas situações traz um certo conforto e segurança.

Vou finalizar com algo que Mark Twain disse e me motiva sempre nos meus dias de “globetrotter”:
“Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness, and many of our people need it sorely on these accounts. Broad, wholesome, charitable views of men and things cannot be acquired by vegetating in one little corner of the earth all one’s lifetime.”